Por Vanderlei Brix

O número é de uma violência quase silenciosa: 8,9 milhões de empresas inadimplentes no Brasil — o maior patamar já registrado. São 8,9 milhões de CNPJs que, em algum momento, não conseguiram honrar o que deviam. E por trás de cada um deles, uma operação que tentou continuar, uma margem que foi comprimida, uma confiança que se rompeu. O dado, referente a março, totaliza R$ 213 bilhões em dívidas em atraso e aparece num momento em que a taxa básica de juros ainda opera em 14,50% ao ano — depois de oito meses estacionada em 15%, o maior nível em quase duas décadas.

O que torna esse número especialmente duro é o fato de que ele não resulta de uma recessão clássica. A economia brasileira ainda cresce — o PIB deve avançar algo em torno de 1,9% em 2026, segundo projeções recentes. O Ibovespa acumula alta expressiva. Os grandes indicadores não mostram colapso. E, no entanto, quase 9 milhões de empresas estão com o nome sujo. Essa distância entre a superfície dos índices e a realidade do balcão é o que o primeiro capítulo de O Valor Inaudível descreve como a falha que não explode — ela corrói. O país continua andando, mas uma parte desproporcional desse movimento é sustentada pela capacidade privada de compensar o que o sistema entrega com atraso, com juro ou simplesmente não entrega.

A raiz desse desencaixe aparece com clareza quando se olha para o crédito. Durante a pandemia, uma onda de endividamento foi incentivada como tábua de salvação. Empresas tomaram recursos para atravessar o fechamento, manter folha, repor estoque. O sistema ofereceu a porta aberta. Mas o que veio depois — Selic a 15% por oito meses, crédito escasso, inflação pressionada por um conflito no Oriente Médio que encareceu combustível e alimentos — transformou aquela mesma porta num muro. A conta que antes cabia no fluxo de caixa passou a disputar espaço com o custo de reposição, com o frete mais caro, com o cliente que também está apertado e pede mais prazo. É o que o capítulo 5 do livro chama de risco como clima. Não é mais o risco pontual de um calote isolado. É o risco que se instalou no ar que a empresa respira todo dia. Quando os juros sobem para conter a inflação, a decisão técnica do Copom desce para a ponta como encurtamento de fôlego. O comerciante que financiava o cliente com 30 dias agora precisa decidir se reduz o prazo e perde a venda ou se mantém o prazo e assume um risco que o balanço não suporta mais. Em qualquer uma das escolhas, algo se perde.

Os números do crédito comercial ajudam a entender a dimensão do problema. Um levantamento recente mostrou que 77% das transações entre empresas no Brasil são feitas a prazo — e mais da metade leva mais de 15 dias para ser liquidada. Isso significa que, numa economia onde o crédito bancário rareia ou custa caro demais, quem financia a cadeia produtiva não é o banco. É o fornecedor. É a empresa que vende e só recebe depois. É você, que converteu sua margem em capital de giro para o cliente. Quando a Selic está em 14,50%, o custo de carregar esse financiamento informal se multiplica. Cada dia de prazo que você concede é um dia em que seu capital está imobilizado. E o sistema, que deveria oferecer alternativas, responde com um crédito caro demais para quem mais precisa. Não é por acaso que o governo acaba de lançar uma nova fase do Desenrola voltada a empresas, com ampliação de prazos e limites para pequenos negócios. A medida reconhece, ainda que tardiamente, que a continuidade da base produtiva está em xeque. Mas o fato de o Estado precisar intervir para renegociar dívidas empresariais em escala já é, por si só, a confissão de que o arranjo normal não funcionou.

Ele não chama o que faz de gestão de risco; chama de segurar a ponta. Sabe que, se perder o controle do prazo, perde junto a reputação — e reputação, para ele, é a linha de crédito que nenhum banco oferece. Quando o fornecedor muda o tom, entende o recado. Quando o cliente pede mais 15 dias, calcula não apenas a margem, mas o custo invisível de dizer sim: a reposição que terá de adiar, o compromisso que terá de renegociar, a energia que será desviada da expansão para a contenção. O que sente nesta manhã de maio não é pânico. É cansaço.

Um cansaço de quem vem sustentando a própria operação com mais disciplina do que o sistema mereceria. Ele não vai quebrar. Vai continuar. Mas continuar, para ele, já não significa crescer. Significa não perder o eixo.

Segundo dados recentes do Banco Central, a projeção de inflação para 2026 foi elevada pela nona semana consecutiva e já atinge 4,91% — acima do teto da meta de 4,5%. Enquanto isso, a Selic, mesmo com dois cortes seguidos, continua em 14,50%. Para uma empresa que depende de capital de giro, essa combinação significa que o custo de manter a operação rodando sobe mais rápido do que a capacidade de repassar preço ao cliente.

Se o fluxo de crédito secasse nos próximos 90 dias — como já secou em 2015, em 2020 e em outros ciclos —, a sua operação continuaria de pé ou estaria apoiada numa liquidez que não é sua?

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