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O que a análise de Jairo Nicolau sobre a abstenção eleitoral revela quando observada pela filosofia de Valor Inaudível — O Lastro Silencioso da Economia.

Mais de 33 milhões de brasileiros deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno das eleições de 2026. Um contingente expressivo, equivalente a aproximadamente 21% do eleitorado, que poderia facilmente conduzir a interpretações sobre desinteresse político, descrença nas instituições ou afastamento da vida democrática.

Entretanto, quando observamos esse fenômeno com maior profundidade, percebemos que o número, embora verdadeiro em sua dimensão estatística, não oferece uma explicação completa da realidade.

O cientista político Jairo Nicolau, pesquisador da Fundação Getulio Vargas e autor de O País Dividido, apresenta uma contribuição importante para essa compreensão. Em sua análise Quatro tópicos sobre a abstenção eleitoral de 2026, publicada em 8 de outubro, demonstra que o conjunto dos eleitores ausentes reúne situações distintas, incluindo pessoas dispensadas da obrigatoriedade do voto, cidadãos sujeitos a dificuldades práticas e eleitores cujas motivações ainda não conhecemos suficientemente.

Sua investigação revela, sobretudo, a necessidade de prudência diante daquilo que os números parecem afirmar.

Essa observação desperta uma reflexão que ultrapassa o campo eleitoral e encontra uma conexão com a tese que desenvolvo em Valor Inaudível — O Lastro Silencioso da Economia.

O que conseguimos medir nem sempre corresponde à totalidade daquilo que possui valor. E aquilo que permanece invisível pode ser justamente o que sustenta a realidade que conseguimos observar.

Entre o direito de escolher e a capacidade de decidir

Em Valor Inaudível, proponho uma compreensão do valor que ultrapassa sua representação monetária ou patrimonial. O patrimônio, o crédito e os recursos econômicos constituem manifestações importantes do valor, mas não encerram todas as condições que tornam possível sua utilização.

O tempo, a confiança, a estabilidade institucional e a capacidade de decisão representam dimensões menos visíveis, mas fundamentais para compreender como o valor se constitui, se preserva e se transforma.

Uma pessoa pode possuir um patrimônio significativo e, ainda assim, não dispor da liquidez necessária para realizar determinado investimento. Pode ter acesso a uma operação de crédito, mas não possuir as condições adequadas para assumir seus compromissos sem comprometer decisões futuras.

Isso ocorre porque a existência de um recurso não significa, necessariamente, a liberdade de utilizá-lo.

Ao transportar essa reflexão para o exercício da cidadania, encontramos uma distinção semelhante.

O direito ao voto é uma conquista institucional. Sua existência assegura formalmente a possibilidade de participação política, mas não significa que todos os cidadãos disponham das mesmas condições materiais, físicas, sociais ou circunstanciais para exercê-lo.

O eleitor pode possuir o direito de votar e enfrentar obstáculos de deslocamento, limitações de saúde ou dificuldades relacionadas ao seu domicílio eleitoral. Pode também, dispondo de todas as condições necessárias, decidir voluntariamente não comparecer.

São situações diferentes, que não podem ser interpretadas como manifestações equivalentes de uma mesma intenção.

A análise de Jairo Nicolau ajuda a identificar essa diversidade. A tese de Valor Inaudível, por sua vez, permite formular uma questão complementar:

Qual é o valor efetivo de um direito quando as condições necessárias para exercê-lo não estão igualmente disponíveis?

A pergunta não pretende explicar todas as ausências por limitações sociais ou institucionais. Ela procura compreender a distância que pode existir entre o reconhecimento formal de uma possibilidade e sua realização concreta.

O lastro invisível da participação

A democracia costuma ser observada por meio de suas manifestações mais visíveis: eleições, votos, resultados, representação política e funcionamento das instituições.

Essas manifestações são indispensáveis, mas não esgotam a compreensão das condições que sustentam a participação democrática.

Antes que uma escolha seja registrada, existe uma estrutura de possibilidades que a antecede. O cidadão precisa dispor de determinadas condições para comparecer, compreender o processo, formar seu julgamento e exercer sua vontade.

Parte dessas condições depende de direitos e garantias institucionais. Outras envolvem circunstâncias individuais e coletivas que se desenvolvem ao longo do tempo.

É nesse conjunto que podemos reconhecer aquilo que chamo, nesta reflexão, de lastro silencioso da participação democrática.

Em economia, o patrimônio pode existir sem estar imediatamente disponível para determinada finalidade. Na democracia, o direito pode estar assegurado sem que todas as condições para seu exercício estejam igualmente presentes.

A analogia não significa que patrimônio e cidadania sejam realidades equivalentes. Significa apenas que, em ambos os campos, existe uma diferença entre possuir determinado valor e dispor das condições para realizá-lo.

Esse é um dos fundamentos filosóficos de Valor Inaudível: compreender aquilo que não aparece diretamente nos indicadores, mas influencia a capacidade humana de agir, escolher e transformar possibilidades em realidade.

A confiança nas instituições também integra essa reflexão. Ela não pode ser presumida como causa da abstenção sem evidências específicas, mas merece atenção como parte das condições mais amplas que sustentam a relação entre cidadãos e democracia.

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Uma instituição pode reconhecer direitos por meio de suas regras, mas a efetividade desses direitos também depende das condições em que são exercidos.

O tempo como dimensão do valor democrático

Um aspecto relevante da investigação de Jairo Nicolau está na relação entre a abstenção e as diferentes etapas da vida.

Ao examinar dados das eleições anteriores, o pesquisador identifica contingentes importantes de jovens entre 18 e 29 anos que não compareceram às urnas, apesar da obrigatoriedade do voto, e de pessoas com 70 anos ou mais, para quem a participação é facultativa.

Entre parte dos eleitores idosos, especialmente mulheres de baixa escolaridade, aparecem circunstâncias associadas à saúde, à mobilidade e à distância até os locais de votação. O pesquisador também alerta para a influência das inconsistências cadastrais sobre esses números.

Essas diferenças revelam uma característica importante: as condições de participação não permanecem necessariamente iguais durante toda a vida.

Um direito pode conservar sua existência jurídica enquanto a capacidade individual de exercê-lo se modifica.

Essa observação estabelece outra conexão com Valor Inaudível.

Na tese do livro, o tempo não representa apenas a sucessão cronológica dos acontecimentos. Ele constitui uma dimensão do valor, porque interfere nas possibilidades disponíveis, nos compromissos assumidos e na capacidade de preservar alternativas para o futuro.

Nas relações econômicas, uma decisão tomada hoje pode ampliar ou restringir escolhas futuras. Na vida democrática, o percurso de cada cidadão também modifica suas condições de participação, ainda que seus direitos permaneçam reconhecidos.

O tempo não altera apenas as circunstâncias em que decidimos. Ele também modifica as possibilidades que temos para decidir.

Talvez por isso não seja suficiente observar o eleitor apenas no instante em que a urna registra sua presença ou sua ausência.

É necessário reconhecer que esse instante pertence a uma trajetória muito mais ampla, construída por experiências, condições de vida e relações institucionais que nem sempre aparecem nos resultados eleitorais.

A diferença entre contar e compreender

Jairo Nicolau apresenta ainda uma observação particularmente importante: a abstenção de 2026 permaneceu praticamente no mesmo patamar registrado em 2022.

Enquanto o primeiro turno de 2022 registrou aproximadamente 20,9% de abstenção, o de 2026 alcançou cerca de 21,1%.

A proximidade entre os percentuais contrasta com interpretações que procuram apresentar cada eleição como evidência de uma transformação radical no comportamento dos eleitores.

O pesquisador também demonstra que problemas nos registros eleitorais podem distorcer a leitura de determinados municípios e reconhece que ainda faltam informações suficientes sobre as motivações de parte dos cidadãos que não comparecem.

Essa prudência metodológica encontra um paralelo com a preocupação filosófica de Valor Inaudível.

Contar é necessário. Mas contar não significa, necessariamente, compreender.

Na economia, os indicadores revelam manifestações mensuráveis de riqueza, crédito, produção e consumo. Entretanto, a interpretação desses números exige compreender as relações de confiança, as condições institucionais e os compromissos temporais que os sustentam.

Na democracia, a contagem dos votos e das ausências também oferece informações indispensáveis. Contudo, transformar esses resultados em explicações sobre a vontade, o interesse ou as intenções de milhões de cidadãos exige evidências que ultrapassam a simples observação estatística.

O número revela uma ocorrência. Seu significado depende de investigação.

É justamente nesse intervalo entre o fenômeno observado e sua compreensão que se encontra uma das questões centrais da tese do valor inaudível.

Aquilo que não foi suficientemente identificado não deixa de existir por não ter sido medido.

Da mesma forma, aquilo que conseguimos medir não deve ser confundido com a totalidade da realidade.

Soberania não é apenas o direito de escolher

A reflexão também encontra relação com o conceito de soberania desenvolvido em Valor Inaudível.

Com frequência, associamos soberania à independência formal de uma nação, à autoridade de suas instituições ou à capacidade de estabelecer suas próprias decisões.

Entretanto, existe uma dimensão que merece atenção: a relação entre a liberdade reconhecida e a capacidade concreta de exercê-la.

Nas relações econômicas, a autonomia de uma pessoa, empresa ou instituição pode ser reduzida quando compromissos anteriores limitam excessivamente suas alternativas futuras.

O direito de decidir permanece, mas o conjunto de possibilidades disponíveis pode se tornar mais restrito.

No exercício da cidadania, embora as circunstâncias sejam diferentes, a reflexão sobre autonomia também exige considerar as condições em que uma decisão pode acontecer.

Isso não significa afirmar que deixar de votar representa necessariamente uma perda de soberania. A ausência pode decorrer de uma escolha voluntária, assim como de dificuldades práticas ou situações que ainda desconhecemos.

A questão filosófica é outra:

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Uma liberdade formalmente reconhecida possui a mesma expressão concreta quando as condições para exercê-la são diferentes?

A investigação de Nicolau não pretende responder a essa pergunta filosófica. Sua contribuição consiste em demonstrar que a abstenção reúne realidades diversas e que ainda existem limites importantes no conhecimento de suas causas.

A tese de Valor Inaudível acrescenta a reflexão sobre a estrutura invisível que sustenta as possibilidades de decisão.

São perspectivas distintas, mas complementares: uma procura compreender o fenômeno eleitoral a partir dos dados; a outra procura refletir sobre as condições que tornam possíveis as escolhas humanas.

Talvez seja esse o verdadeiro lastro

Ao observarmos milhões de ausências nas urnas, somos naturalmente conduzidos à dimensão do número. Afinal, a estatística permite identificar a extensão do fenômeno, comparar períodos e reconhecer diferenças entre grupos e regiões.

Entretanto, a contribuição de Jairo Nicolau demonstra que a compreensão da abstenção exige reconhecer também aquilo que ainda não sabemos.

Nem todas as ausências possuem a mesma origem. Nem todos os cidadãos ausentes compartilham as mesmas condições. E nem toda ausência pode ser interpretada como uma manifestação de desinteresse.

A partir dessa constatação, a reflexão de Valor Inaudível propõe ampliar o olhar para uma dimensão anterior ao próprio ato de votar: as condições que tornam possível a capacidade de escolha.

Porque a liberdade não depende apenas da existência de alternativas formalmente reconhecidas. Sua realização também se relaciona com as condições concretas que permitem exercê-las.

Isso vale para muitas decisões econômicas e constitui igualmente uma questão relevante para compreender o exercício da cidadania.

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O voto é a manifestação visível de uma escolha. Mas a possibilidade de escolher possui um lastro que nem sempre aparece nas urnas.

Talvez uma sociedade não deva ser compreendida exclusivamente pelas decisões que consegue registrar, mas também por sua capacidade de reconhecer e investigar as condições em que essas decisões acontecem.

O direito representa uma conquista. As instituições oferecem sua estrutura. O tempo transforma as circunstâncias. E a capacidade de decidir depende da relação entre esses elementos e a realidade de cada indivíduo.

É nesse ponto que a análise científica da abstenção encontra a reflexão filosófica sobre o valor.

Não para transformar todas as ausências em manifestações políticas, nem para atribuir significados que os dados não permitem demonstrar, mas para reconhecer que a realidade humana ultrapassa aquilo que conseguimos imediatamente contabilizar.

Uma escolha pode acontecer em segundos, mas a capacidade de escolher é construída ao longo do tempo.

Talvez seja esse um dos lastros mais importantes de uma democracia: não apenas reconhecer o direito de escolha, mas compreender as condições que permitem exercê-lo.

Porque o valor de uma decisão não está somente no momento em que ela se manifesta.

Está também naquilo que a torna possível.

E é justamente essa dimensão que, muitas vezes, permanece inaudível.

Escuta do Inaudível — Reflexões sobre valor, tempo, confiança e sociedade.

Referência de pesquisa

NICOLAU, Jairo. Quatro tópicos sobre a abstenção eleitoral de 2026. Política & Dados, 8 de outubro de 2026.

Este artigo apresenta uma reflexão filosófica independente a partir dos dados e das análises do pesquisador, sem atribuir a ele as interpretações desenvolvidas pelo autor de Valor Inaudível.

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